{"id":1041,"date":"2025-11-11T17:11:07","date_gmt":"2025-11-11T20:11:07","guid":{"rendered":"https:\/\/oca.ufpa.br\/?p=1041"},"modified":"2025-11-11T17:11:07","modified_gmt":"2025-11-11T20:11:07","slug":"critica-de-a-rifa-do-porco-julinho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/oca.ufpa.br\/?p=1041","title":{"rendered":"Cr\u00edtica de A Rifa do Porco Julinho"},"content":{"rendered":"\n<p>Por Nickolas Portilho*<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/cdn-sites-images.46graus.com\/files\/photos\/e1e2e935\/16eff31a-476d-4667-bb10-5d0a05e8505c\/1-1080x1080.png\" alt=\"\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p>Imagine que um clube de futebol falido precisa arrecadar fundos, mas em vez de seguir pelo caminho tradicional como criar um programa de s\u00f3cio-torcedor ou realizar campanhas de doa\u00e7\u00f5es, o clube decide rifar um porco. Essa \u00e9 a hist\u00f3ria do filme&nbsp; <em>\u201cA Rifa do Porco Julinho\u201d, <\/em>curta-metragem de 20 minutos, escrito e dirigido por Gabriel Darwich. Lan\u00e7ado em 2025, o curta&nbsp; apresenta um clube tradicional e fict\u00edcio de Bel\u00e9m, o Atl\u00e9tico FC, que, enfrentando dificuldades financeiras, faz a rifa de um porco doado por um torcedor apaixonado.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O filme \u00e9 o primeiro trabalho n\u00e3o universit\u00e1rio de Darwich, cineasta graduado pela Universidade Federal do Par\u00e1. Idealizado pela primeira vez em 2021, em meio a pandemia e aulas online, a fagulha de inspira\u00e7\u00e3o para a cria\u00e7\u00e3o do projeto nasceu de uma not\u00edcia falsa que circulou em grupos de WhatsApp na \u00e9poca, mas foi desmentida rapidamente. E, baseado nesses fatos n\u00e3o t\u00e3o reais, o filme nos convida a pensar \u201ce se fosse verdade?\u201d. Com um roteiro linear, a trama se desdobra com entrevistas e depoimentos dos personagens envolvidos diretamente com o porco. O roteiro tem plena consci\u00eancia de que o p\u00fablico est\u00e1 ansioso para conhecer o Julinho, ent\u00e3o n\u00e3o h\u00e1 grandes preocupa\u00e7\u00f5es com os eventos anteriores, como a identidade do torcedor que doou o porco ou a rea\u00e7\u00e3o dos torcedores a esse ato. O p\u00fablico embarca em um trem que j\u00e1 est\u00e1 em movimento h\u00e1 algum tempo e vai compreendendo a situa\u00e7\u00e3o \u00e0 medida que os relatos dos participantes da hist\u00f3ria s\u00e3o apresentados.<\/p>\n\n\n\n<p>Por se tratar de um falso document\u00e1rio (<em>mockumentary<\/em>), <em>\u201cA Rifa do Porco Julinho\u201d<\/em> poderia seguir por diversos caminhos: algo com mais a\u00e7\u00e3o, dram\u00e1tico ou um suspense, mas o roteiro opta pela s\u00e1tira que resulta em humor. A explora\u00e7\u00e3o do absurdo da situa\u00e7\u00e3o \u00e9 feita de maneira quase convincente, mesmo que o filme n\u00e3o seja definido pela com\u00e9dia. O humor aparece de maneira pontual e \u00e9 bem elaborado, geralmente surgindo de forma natural nas a\u00e7\u00f5es, falas ou carisma dos personagens, e o principal deles \u00e9 o Julinho. O porco, cujo nome verdadeiro \u00e9 Bardock, \u00e9 \u2013 n\u00e3o t\u00e3o \u2013 surpreendentemente o personagem mais cativante do enredo. Sempre ao lado de sua cuidadora, interpretada por Marina Di Gusm\u00e3o, Julinho domina a tela, pois h\u00e1 uma certa gra\u00e7a em observar um animal grande feito ele sendo tratado como o mascote mimado de uma equipe de futebol. S\u00e3o detalhes simples que d\u00e3o o tom de humor para a hist\u00f3ria, mesmo que Gabriel, o diretor, j\u00e1 tenha mencionado que n\u00e3o v\u00ea o filme como uma com\u00e9dia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Pode ser desafiador ligar a suspens\u00e3o de descren\u00e7a ao ler a sinopse, podendo soar at\u00e9 um pouco tosca, mas a prepara\u00e7\u00e3o do elenco ajuda a contornar essa quest\u00e3o de maneira eficaz. A atua\u00e7\u00e3o do saudoso M\u00e1rio Zumba revela a naturalidade nas a\u00e7\u00f5es que essa prepara\u00e7\u00e3o proporciona, com suas falas formais e polidas, fazendo o espectador acreditar que est\u00e1 vendo um verdadeiro jornalista esportivo. O filme tamb\u00e9m se utiliza de elementos da realidade e estere\u00f3tipos para que os atores marquem presen\u00e7a em cena: o tom s\u00e9rio e firme do diretor do clube, que sempre est\u00e1 acompanhado de um charuto na m\u00e3o \u2013 tal qual um mafioso de filmes dos anos 90, o jeito de falar carregado do granjeiro e suas roupas sujas, a forma suave com que a cuidadora se dirige a Julinho e \u00e0 c\u00e2mera, e o comportamento descontra\u00eddo e caricatural do delegado de pol\u00edcia. Todos parecem aut\u00eanticos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O filme \u00e9 um retrato da cultura paraense que ama futebol, mas tamb\u00e9m um abra\u00e7o pela sua representa\u00e7\u00e3o. Com rivalidades hist\u00f3ricas, como as entre Remo e Paysandu na cidade, torna-se f\u00e1cil perceber a inspira\u00e7\u00e3o por tr\u00e1s do Atl\u00e9tico FC e da Desportiva, representados por cores opostas. Na constru\u00e7\u00e3o dessa nova Bel\u00e9m do zero, a equipe de dire\u00e7\u00e3o de arte, sob a lideran\u00e7a de Victor Moura, realiza um trabalho excepcional. Por trabalhar com uma equipe de futebol fict\u00edcia, os desafios em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 loca\u00e7\u00e3o e \u00e0 promo\u00e7\u00e3o do clube s\u00e3o mais complexos. Ao filmar nas ruas, a c\u00e2mera permite que o espectador veja diversas camisetas do Julinho expostas em cordas de barracas de vendedores ambulantes, crian\u00e7as torcedoras segurando brinquedos de r\u00e9plicas amarelas em homenagem ao bicho e at\u00e9 lanches com seu nome, criando a impress\u00e3o de que tudo isso \u00e9 real. De certa forma, realmente \u00e9. O carinho que os f\u00e3s nutrem pelo futebol e pelo fict\u00edcio Atl\u00e9tico FC est\u00e1 presente em uma grande parte da popula\u00e7\u00e3o do Brasil, e n\u00e3o apenas no Par\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m das loca\u00e7\u00f5es, a trilha sonora do filme contribui significativamente para a imers\u00e3o na obra. Bel\u00e9m \u00e9, por sua natureza, uma cidade barulhenta, repleta de viv\u00eancias em cada metro quadrado das ruas, e capturar essa realidade na tela n\u00e3o \u00e9 simples \u2013 mesmo que a maior parte da hist\u00f3ria ocorra em ambientes fechados. Captar a ess\u00eancia de uma cidade grande apenas por meio do som \u00e9 uma tarefa realizada com destreza por Daniel Magno, que lidera essa equipe. N\u00e3o s\u00f3 isso, mas a composi\u00e7\u00e3o de uma m\u00fasica original que embala o in\u00edcio e o final do filme, intitulada de \u201cO Samba do Julinho\u201d, apresenta um ritmo leve que lembra o p\u00fablico que est\u00e1 assistindo a uma obra genuinamente brasileira \u2013 afinal, qualquer um j\u00e1 ouviu por a\u00ed o som caracter\u00edstico de uma cu\u00edca, n\u00e3o \u00e9?<br><em>\u201cA Rifa do Porco Julinho\u201d<\/em> \u00e9 um curta que reafirma o poder que o cinema brasileiro tem como uma forma de arte e de express\u00e3o social, mostrando como o futebol pode ser o elo para a cria\u00e7\u00e3o ou constru\u00e7\u00e3o de v\u00ednculos e afetos entre as pessoas. Ao mesmo tempo, a obra envolve tanto os apreciadores quanto os n\u00e3o apreciadores do futebol a celebrar um esporte que representa o Brasil, assim como a cultura do Par\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:clamp(14px, 0.875rem + ((1vw - 3.2px) * 0.625), 20px);\">* Nickolas Portilho \u00e9 aluno do Curso de Comunica\u00e7\u00e3o Social &#8211; Jornalismo da UFPA.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Nickolas Portilho* Imagine que um clube de futebol falido precisa arrecadar fundos, mas em vez de seguir pelo caminho tradicional como criar um programa de s\u00f3cio-torcedor ou realizar campanhas de doa\u00e7\u00f5es, o clube decide rifar um porco. 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