{"id":379,"date":"2025-03-08T14:55:45","date_gmt":"2025-03-08T17:55:45","guid":{"rendered":"https:\/\/oca.ufpa.br\/?p=379"},"modified":"2025-03-08T14:55:45","modified_gmt":"2025-03-08T17:55:45","slug":"critica-do-filme-agarra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/oca.ufpa.br\/?p=379","title":{"rendered":"Cr\u00edtica do filme Agarra"},"content":{"rendered":"\n<p>Por Beatriz Negr\u00e3o \/ <\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"432\" height=\"285\" src=\"https:\/\/oca.ufpa.br\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/image-10.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-380\" style=\"width:620px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/oca.ufpa.br\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/image-10.png 432w, https:\/\/oca.ufpa.br\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/image-10-300x198.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 432px) 100vw, 432px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Agarra (2023), de Clara Estolano, \u00e9 um fotofilme, tipo de filme que experimenta misturando a linguagem da fotografia com a linguagem cinematogr\u00e1fica. Uma das caracter\u00edsticas que intensifica essa express\u00e3o art\u00edstica \u00e9 o uso de som sobreposto \u00e0 fotografia. Em Agarra, Estolano inicia com um forr\u00f3, que, atrelado \u00e0s imagens de decora\u00e7\u00e3o de festa junina, nos leva imediatamente a uma noite quente de Junho. As risadas ao fundo e o vozerio cujas palavras s\u00e3o irreconhec\u00edveis, bem como as espigas de milho e bandeirinhas evocam a sensa\u00e7\u00e3o de universalidade daquela festa. \u00c9 apenas uma dentre milhares de noites de S\u00e3o Jo\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Um casal de jovens flerta e joga conversa fora, at\u00e9 que a mo\u00e7a diz que esses tempos \u201cn\u00e3o consegue evitar comer carne\u201d. Essa fala, bem como a aparentemente inocente pergunta do rapaz sobre a lua, agem como press\u00e1gio para a dire\u00e7\u00e3o que a narrativa vai tomar, na metade do filme: as personagens v\u00e3o para a floresta, no que parece uma escapada sexual, e a mo\u00e7a se transforma em uma esp\u00e9cie de fera. O filme evidencia seu humor sagaz no di\u00e1logo carregado de duplo sentido, no qual perder a virgindade e se transformar em monstro s\u00e3o situa\u00e7\u00f5es an\u00e1logas. Aqui, o termo \u201cAgarra\u201d \u00e9 uma brincadeira sobre as unhas de uma fera e os amassos de um casal.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda na primeira parte do filme, as fotos utilizadas s\u00e3o, principalmente, close-ups em detalhes da festa ou ent\u00e3o nas express\u00f5es da menina, apresentando pouca varia\u00e7\u00e3o visual. S\u00e3o fotos em sequ\u00eancia da mesma personagem em posi\u00e7\u00f5es ligeiramente diferentes, s\u00f3 o suficiente para mostrar que h\u00e1 movimento, mas n\u00e3o ousadas o bastante para gerar muito interesse. Ao mesmo tempo, essa escolha est\u00e9tica mais modesta pode ser justamente um recurso da dire\u00e7\u00e3o, que visa proporcionar uma atmosfera de namoro adolescente, no qual h\u00e1 um certo desajeitamento e prolongamento de momentos desconfort\u00e1veis. Caracter\u00edstica essa que \u00e9 refor\u00e7ada pelo posicionamento da c\u00e2mera como ponto de vista subjetivo do rapaz.<\/p>\n\n\n\n<p>Na fotografia tradicional, o observador escolhe por quanto tempo quer permanecer visualizando a imagem, bem como em que detalhes quer se atentar. Em fotofilmes, esse poder pertence ao diretor, que dita o ritmo ao escolher quanto tempo cada foto permanece em tela. Estolano acelera esse tempo durante a cena da transforma\u00e7\u00e3o na floresta, ao pular de foto em foto com certa velocidade, e emprega o som em favor da montagem ao usar sons de unhas arranhando a pele, num frenesi coceirento da mo\u00e7a segundos antes de se transformar. Aqui, a foto muda quase que simultaneamente com cada arranhada da unha, aliada \u00e0s respira\u00e7\u00f5es ofegantes da menina.<\/p>\n\n\n\n<p>Outro recurso bem aplicado da fotografia s\u00e3o os desfoques de movimento, posicionados intencionalmente no processo de metamorfose da personagem, gerando imagens onde seu rosto assume uma apar\u00eancia fantasmag\u00f3rica, quase desfigurada pelo movimento. Ao final da transforma\u00e7\u00e3o, recursos tradicionais do cinema de horror s\u00e3o utilizados de forma inteligente: a menina (agora animal) n\u00e3o precisa ser claramente mostrada para ser temida, na verdade, \u00e9 o exato oposto. Ela est\u00e1 mais longe da c\u00e2mera e \u00e9 pouco vis\u00edvel, banhada pela escurid\u00e3o da noite e iluminada apenas por um foco de luz; e \u00e9 justamente essa indefini\u00e7\u00e3o, causada pelo desfoque e pela escurid\u00e3o, que estimula interesse na criatura: ela ainda \u00e9 a namorada, ou deu lugar ao monstro?<\/p>\n\n\n\n<p>As melhores qualidades de Agarra est\u00e3o presentes no final, como a velocidade gerada pelos desfoques de movimento e as risadas, que se encontram no \u00e1pice. O rapaz sobe nas costas da mo\u00e7a e, em \u00eaxtase, os namorados correm pela floresta.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Beatriz Negr\u00e3o \/ Agarra (2023), de Clara Estolano, \u00e9 um fotofilme, tipo de filme que experimenta misturando a linguagem da fotografia com a linguagem cinematogr\u00e1fica. Uma das caracter\u00edsticas que intensifica essa express\u00e3o art\u00edstica \u00e9 o uso de som sobreposto \u00e0 fotografia. 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