{"id":433,"date":"2025-03-08T15:16:33","date_gmt":"2025-03-08T18:16:33","guid":{"rendered":"https:\/\/oca.ufpa.br\/?p=433"},"modified":"2025-03-08T15:16:33","modified_gmt":"2025-03-08T18:16:33","slug":"filme-como-chorar-sem-derreter-critica-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/oca.ufpa.br\/?p=433","title":{"rendered":"Filme Como Chorar Sem Derreter (Cr\u00edtica 2)"},"content":{"rendered":"\n<p>Por Richerd Oliveira<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"439\" height=\"237\" src=\"https:\/\/oca.ufpa.br\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/image-28.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-434\" style=\"width:620px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/oca.ufpa.br\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/image-28.png 439w, https:\/\/oca.ufpa.br\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/image-28-300x162.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 439px) 100vw, 439px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>O curta \u201cComo Chorar Sem Derreter\u201d, dirigido por Giulia Butler e produzido pela faculdade PUC-RJ, traz Elizabeth e o problema que surgiu de forma repentina em sua vida em forma de uma condi\u00e7\u00e3o de sa\u00fade negativa: Um bloqueio do canal lagrimal. Na primeira cena da obra, h\u00e1 uma floresta e uma pequena casa com uma fechadura. Ent\u00e3o, uma m\u00e3o se estende e, com uma chave, abre a fechadura da casa que nos apresenta seus c\u00f4modos. Ap\u00f3s isso, somos transportados para uma sala de exame, onde Elizabeth, nossa protagonista, se encontra em uma consulta com uma oftalmologista que explica a ela sobre sua condi\u00e7\u00e3o e as raz\u00f5es para esta se desenvolver. A doutora explica e diz que a condi\u00e7\u00e3o leva o nome de \u201cDoen\u00e7a do Ator\u201d, associando isto \u00e0 busca dos atores em retratar, de forma realista, mas ainda sim fingida, sentimentos e emo\u00e7\u00f5es humanas a fim de criar uma sensa\u00e7\u00e3o de verdadeiro, \u201ccongelando-as\u201d com o prop\u00f3sito de quebr\u00e1-las apenas nos momentos necess\u00e1rios. Ap\u00f3s sua consulta, Elizabeth volta para sua casa e a partir disso somos apresentados a uma garota at\u00e9 ent\u00e3o desconhecida brincando com uma geleia, Eliza parece conhec\u00ea-la.<\/p>\n\n\n\n<p>Sequencialmente, Elizabeth prepara a janta sob a companhia da garota enquanto corta cebolas. Nesse momento, at\u00e9 o simples ato de cortar cebolas n\u00e3o permite que Eliza chore, precisando que a garota fique respons\u00e1vel por borrifar part\u00edculas de \u00e1gua em seus olhos a fim de, ao menos, hidrat\u00e1-los. Durante a janta, a garota novamente retoma a fala da Oftalmologista e diz \u00e0 Eliza que sabe a raz\u00e3o pela qual ela n\u00e3o consegue chorar. A menina ent\u00e3o diz que \u00e9 necess\u00e1rio realizar alguns testes para ter certeza da condi\u00e7\u00e3o de Eliza, que prontamente aceita participar.<\/p>\n\n\n\n<p>Somos ent\u00e3o levados a um laborat\u00f3rio, no qual Elizabeth se acomoda enquanto a garota prepara seus equipamentos para os seus testes. Fazendo uso de um estetosc\u00f3pio, Elizabeth tem seus batimentos examinados pela menina, que afirma que seus sentimentos est\u00e3o embara\u00e7ados. Eliza diz que sempre foi assim. A garota ent\u00e3o explica que h\u00e1 v\u00e1rias camadas \u2013 sentimentos \u2013 das quais Elizabeth n\u00e3o se lembra. Eliza retruca dizendo que se retirar todas as m\u00e1scaras \u2013 sentimentos \u2013 o que sobrar\u00e1? Os testes continuam e a garota diz ouvir as l\u00e1grimas se formando e recomenda que Eliza pare de \u201cengolir o choro\u201d, que responde dizendo que n\u00e3o faz de prop\u00f3sito, at\u00e9 mesmo esquecendo de como chorar. A garota pergunta ent\u00e3o o que faz quando est\u00e1 triste. Elizabeth responde de modo reflexivo, dizendo que n\u00e3o sabe e apenas espera. A garota pergunta \u201cE se voc\u00ea n\u00e3o puder esperar?\u201d, com Elizabeth respondendo uma \u00faltima vez: \u201cTem anos que s\u00f3 choro com personagens\u201d e a menina retruca \u201cMas voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 atriz\u201d. O teste termina com Eliza respondendo a afirma\u00e7\u00e3o da garota, dizendo que, de fato, n\u00e3o \u00e9 atriz. A sequ\u00eancia se encerra com a menina descobrindo a raz\u00e3o pela falta das l\u00e1grimas e Elizabeth ao lado da pequena casa que abriu no in\u00edcio da obra.<\/p>\n\n\n\n<p>Por fim, somos apresentados a um equipamento com tubos e l\u00edquidos. Vestindo o equipamento, Elizabeth aguarda enquanto a garota come\u00e7a a configur\u00e1-lo e insere, atrav\u00e9s de uma seringa, um l\u00edquido semelhante a l\u00e1grimas que passam pelos tubos do equipamento e v\u00e3o at\u00e9 o rosto de Elizabeth, simulando um choro. A partir deste momento entendemos o prop\u00f3sito da engenhoca: Simular o choro para Elizabeth e permitir que ela se cure da sua condi\u00e7\u00e3o. No fim desta sequ\u00eancia, h\u00e1 uma mudan\u00e7a de cen\u00e1rio do laborat\u00f3rio para Elizabeth sob a luz do sol e em uma floresta chorando de fato. O curta se encerra.<\/p>\n\n\n\n<p>O curta, como um todo, diz respeito a dificuldade e quase impossibilidade de Elizabeth de poder chorar. Isso se reflete em muitos momentos com a express\u00e3o neutra que Eliza esbanja, nunca demonstrando nenhum sentimento sequer, mesmo sob a companhia da tal garota. A reflex\u00e3o que a garota faz com Eliza sobre esta dificuldade que ela tem em aceitar os sentimentos e permitir senti-los, provoca em Elizabeth um questionamento e uma quebra do que seria essa impossibilidade de chorar. Sob um olhar mais narrativo, entendemos que o curta se trata de uma senhora tentando melhorar sua condi\u00e7\u00e3o e uma garota que estuda sobre, e inventa um equipamento que a ajude para isso. Entretanto, a partir da an\u00e1lise simb\u00f3lica do filme e pequenas pistas, \u00e9 poss\u00edvel identificar que a tal garota nunca existiu e apenas estamos presenciando a reflex\u00e3o da pr\u00f3pria Elizabeth em seu interior psicol\u00f3gico. No primeiro momento da obra, somos apresentados a uma pequena casa com uma fechadura. Quando uma m\u00e3o se estende segurando uma chave, abrindo a tal casa, somos apresentados a c\u00f4modos semelhantes aos que aparecem no curta. A partir disso, presenciamos sob a perspectiva de Elizabeth eventos rotineiros do dia a dia, mas que, subliminarmente, trata-se de observa\u00e7\u00f5es da pr\u00f3pria Elizabeth acerca do que ocorrera consigo mesma. Ela passa por diferentes cen\u00e1rios e momentos, sempre acompanhada da tal garota que nunca nos \u00e9 revelado o nome. Nesta an\u00e1lise, \u00e9 poss\u00edvel entender que a pequena casa se trata de uma representa\u00e7\u00e3o do que seria os sentimentos e a mente de Eliza. A garota seria um dos personagens criados por ela mesma, retomando a fala dela durante os testes com a mesma garota onde Eliza diz que \u201ch\u00e1 anos que chora com personagens\u201d, retratando a menina como aquela fa\u00edsca de esperan\u00e7a e humanidade que ainda h\u00e1 no cora\u00e7\u00e3o de Elizabeth, pois \u00e9 esta mesma garota que permite que Elizabeth finalmente se entregue aos sentimentos e chore. O que refor\u00e7a este argumento s\u00e3o os momentos em que a pequena casa \u00e9 observada no curta. No primeiro momento ela \u00e9 aberta por uma chave pela pr\u00f3pria Elizabeth, traduzindo como um embate interno sobre o que ela sofre: A supress\u00e3o de sentimentos e como isso a prejudica.<\/p>\n\n\n\n<p>A casa serve de objeto para retratar, de modo observ\u00e1vel e palp\u00e1vel, o que seria esta adversidade que Elizabeth encara no momento e como, ao longo do curta, ela aceita que a casa n\u00e3o deve ser trancada, mas aceita do modo que \u00e9. Isto \u00e9 mostrado brevemente em um momento, quando Elizabeth est\u00e1 sentada escorada na casa enquanto observa a c\u00e2mera. A garota, sem nome e apenas acompanhando nossa protagonista, seria um daqueles personagens que Elizabeth menciona durante seu teste. A signific\u00e2ncia por traz dela \u00e9 subjetiva, cabendo ao espectador compreender e assimilar da maneira que preferir. No entanto, a partir do que a obra apresenta, \u00e9 compreendido que a garota nada mais \u00e9 que uma concep\u00e7\u00e3o criada propriamente por Elizabeth como suporte neste seu momento de conflito interno gerado pelo longo intervalo de anos retendo os seus sentimentos mais profundos. As solu\u00e7\u00f5es que a garota oferece seriam as conclus\u00f5es que Elizabeth fez a partir da autoan\u00e1lise da sua natureza, do seu eu. Pode-se tamb\u00e9m que a garota seria Elizabeth mais nova, mas novamente, isso seria cab\u00edvel ao pr\u00f3prio espectador deduzir.<\/p>\n\n\n\n<p>Por fim, o equipamento utilizado por Elizabeth. Atrav\u00e9s das a\u00e7\u00f5es da pr\u00f3pria garota e da cena final em que ela chora artificialmente atrav\u00e9s dos tubos que liberam \u201cl\u00e1grimas\u201d, pode-se entender como a fase de aceita\u00e7\u00e3o e repara\u00e7\u00e3o de Elizabeth quanto ao seu conflito interno. Isso \u00e9 refor\u00e7ado quando as luzes acima de Elizabeth piscam, indicando instabilidade e a reden\u00e7\u00e3o dela para com seus pr\u00f3prios sentimentos. A cena logo muda para Elizabeth na floresta, na mesma posi\u00e7\u00e3o. O curta se encerra. Sob este vi\u00e9s e com a cena final, entende-se que tudo que observamos tratou-se de um conflito interno observado pela pr\u00f3pria Elizabeth. A cria\u00e7\u00e3o dos cen\u00e1rios, da casa e da pr\u00f3pria garota partiu da mente de Eliza como recursos para permitirem uma recupera\u00e7\u00e3o mais eficaz e finalmente o acolhimento dos sentimentos por parte de Eliza. O curta apresenta planos est\u00e1ticos e com uma fotografia cuidadosa, sempre buscando uma identidade visual natural, alternando entre cores frias e quentes dependendo da cena\/contexto da obra. Todos os planos s\u00e3o est\u00e1ticos, com a presen\u00e7a de muitos close-ups e planos detalhe, criando um ligeiro desconforto no espectador sob as circunst\u00e2ncias que a protagonista se encontra. Apenas na cena final a obra adota a c\u00e2mera na m\u00e3o, passando um sentimento de naturalidade a partir do que acontecera na narrativa do curta. A escolha t\u00e9cnica de manter planos est\u00e1ticos, transmite ao espectador que Elizabeth est\u00e1 em constante an\u00e1lise da sua vida, sempre refletindo sobre os momentos que passou e sua luta para tentar quebrar a barreira que a impede de sentir seus sentimentos. Quando finalmente sucede, o plano com uso da c\u00e2mera na m\u00e3o transmite essa conquista e, ao mesmo tempo, simboliza o alcance que Eliza conseguiu ao finalmente se conectar com seus sentimentos e seu lado humano natural.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Richerd Oliveira O curta \u201cComo Chorar Sem Derreter\u201d, dirigido por Giulia Butler e produzido pela faculdade PUC-RJ, traz Elizabeth e o problema que surgiu de forma repentina em sua vida em forma de uma condi\u00e7\u00e3o de sa\u00fade negativa: Um bloqueio do canal lagrimal. 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