{"id":633,"date":"2025-03-19T21:34:52","date_gmt":"2025-03-20T00:34:52","guid":{"rendered":"https:\/\/oca.ufpa.br\/?p=633"},"modified":"2025-03-27T22:46:06","modified_gmt":"2025-03-28T01:46:06","slug":"erotismo-e-questoes-de-genero-em-anora","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/oca.ufpa.br\/?p=633","title":{"rendered":"Erotismo e Quest\u00f5es de G\u00eanero em Anora"},"content":{"rendered":"\n<p>Por \u00c1dria Sofia Dias Lage \/<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Teresa de Lauretis (DE LAURETIS, 1996, pg. 100) pontua que tanto no modelo lingu\u00edstico estrutural, quanto no psicanal\u00edtico din\u00e2mico, ambos alicerces fundamentais da teoria contempor\u00e2nea do cinema, \u201ca rela\u00e7\u00e3o da mulher com a sexualidade ou \u00e9 reduzida e assimilada \u00e0 sexualidade masculina ou fica nela confinada\u201d. Tal afirma\u00e7\u00e3o \u00e9 facilmente verificada e j\u00e1 amplamente debatida atrav\u00e9s da an\u00e1lise de filmes dos mais diversos g\u00eaneros. O cinema de horror, por exemplo, por vezes refor\u00e7a, por meio de figuras como a bruxa de A Maldi\u00e7\u00e3o do Dem\u00f4nio (1960), a associa\u00e7\u00e3o entre sexualidade feminina e malignidade, presente no imagin\u00e1rio coletivo desde a segunda metade da Idade M\u00e9dia (LAROCCA, 2020). Larocca \u00e9 ainda mais enf\u00e1tica ao pontuar que \u201cos autores [dos tratados sobre bruxaria da Idade M\u00e9dia] n\u00e3o acusam em nenhum momento mulheres virgens ou castas de bruxaria. As bruxas s\u00e3o sempre ad\u00falteras, parteiras assassinas, m\u00e3es malignas e mulheres desviantes da norma\u201d. A autora destaca tamb\u00e9m como a representa\u00e7\u00e3o cinematogr\u00e1fica dessa mulher diab\u00f3lica ganhou for\u00e7as a partir da d\u00e9cada de sessenta, per\u00edodo em que o debate acerca da liberta\u00e7\u00e3o sexual feminina cresceu atrav\u00e9s da segunda onda feminista.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando n\u00e3o demonizada, a \u201csexualidade feminina\u201d no cinema \u00e9 na verdade apenas a sexualidade masculina projetada sobre o corpo de uma mulher-objeto cujo \u00fanico prazer \u00e9 ser piv\u00f4 do prazer masculino. Assim, entre bruxas e femme fatales, degeneradas ou n\u00e3o-sujeitos, h\u00e1, ainda hoje, pouco espa\u00e7o no audiovisual para representa\u00e7\u00f5es satisfatoriamente saud\u00e1veis do desejo e do corpo feminino. Nesse contexto, \u00e9 compreens\u00edvel e at\u00e9 ben\u00e9fico que indiv\u00edduos minimamente letrados em quest\u00f5es de g\u00eanero questionem a forma como o erotismo \u00e9 trabalhado nas obras, especialmente aquelas dirigidas por homens.<\/p>\n\n\n\n<p>A s\u00e9rie The Idol (Sam Levinson, 2023),por exemplo, suscitou grandes debates no seu ano de lan\u00e7amento por explorar o corpo feminino de forma excessivamente sexual, fetichista e degradante. Na \u00e9poca, divulgou-se que muitas dessas cenas teriam sido supostamente adicionadas ap\u00f3s a substitui\u00e7\u00e3o da diretora Amy Seimetz por Sam Levison. A revista Rolling Stones, que afirma ter ouvido cerca de treze funcion\u00e1rios do programa, disse que a justificativa do co-criador Abel Tesfaye para a troca teria sido de que a s\u00e9rie estava enveredando excessivamente por uma \u201cperspectiva feminina\u201d. A recorr\u00eancia de acontecimentos como esse tornam mais do que compreens\u00edvel um certo temor \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de personagens femininas sob \u201cperspectiva masculina\u201d, especialmente no tocante \u00e0 sexualidade. No entanto, a linha entre propor um debate progressista sobre dignidade feminina nas telas e sucumbir \u00e0 caretice e ao moralismo disfar\u00e7ados pode ser surpreendentemente t\u00eanue \u00e0s vezes, especialmente quando estamos hiperexpostos a ferramentas como as redes sociais, que t\u00eam a capacidade de nos oferecer uma quantidade louv\u00e1vel de problematiza\u00e7\u00f5es relevant\u00edssimas, sem, no entanto, aprofundar a maioria delas. \u00c9 o que acho que acontece com alguns lan\u00e7amentos recentes, como Pobres Criaturas (Yorgos Lanthimos, 2023) e, o eixo central da pesquisa desse ensaio, Anora (Sean Baker, 2024), ambas obras com reflex\u00f5es pertinentes sobre feminilidade, mas alvo de muitas cr\u00edticas por estarem supostamente propondo uma perspectiva masculinista de cinema atrav\u00e9s de suas representa\u00e7\u00f5es sexuais.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim como os cr\u00edticos desses filmes, senti um breve desconforto ao ver projetadas no tel\u00e3o as cenas de sexo das produ\u00e7\u00f5es citados. Nas duas vezes, voltei para casa pensativa. Seria o desconforto um indicativo de que as cenas eram \u201cdesnecess\u00e1rias\u201d, como vi algumas pessoas comentarem? Alguns anos atr\u00e1s talvez pensasse que sim, os filmes, em particular Pobres Criaturas, poderiam existir sem alguns planos. Mas, sendo o cinema uma arte e a arte subjetiva por ess\u00eancia, h\u00e1 algo que de fato seja uma necessidade e n\u00e3o mera escolha de cunho autoral? E ainda mais, em que medida estamos nos acovardando diante da possibilidade de fazer um cinema mais confrontativo ao optarmos por uma l\u00f3gica utilitarista e at\u00e9 um tanto conservadora que evite incorporar de forma t\u00e3o gr\u00e1fica cenas de mulheres realizando essas a\u00e7\u00f5es aparentemente sem fun\u00e7\u00e3o narrativa, mas b\u00e1sicas \u00e0 vida fora das telas? Ainda n\u00e3o encontrei, e penso que n\u00e3o haja, uma resposta definitiva e universal para esses questionamentos. O que compartilho agora s\u00e3o, portanto, algumas reflex\u00f5es que fiz durante o processo de pensar a obra \u00e0 luz dessas perguntas.<\/p>\n\n\n\n<p>Laura Mulvey aborda a quest\u00e3o do prazer visual faloc\u00eantrico exercido sobre a imagem da mulher no cinema afirmando que dois pilares o sustentam: a escopofilia, isto \u00e9, \u201cato de tomar as outras pessoas como objetos, sujeitando-as a um olhar fixo, curioso e controlador\u201d (MULVEY, 1983, pg. 440) e o ego, a partir do qual o homem- espectador pode se identificar com o homem-personagem e assim possuir por tabela a mulher f\u00edlmica. Em Anora, h\u00e1 desde a primeira cena o estabelecimento da escopofilia, com uma decupagem que dilacera o corpo da protagonista e de outras mulheres em planos que focam nos seus corpos hiperssexuais. No entanto, a c\u00e2mera passeia por elas como em uma esteira at\u00e9 parar na protagonista, mostrando que, embora pelas pr\u00f3ximas horas ela v\u00e1 receber um pouco mais de aten\u00e7\u00e3o do espectador que as outras, Anora ainda \u00e9 apenas mais uma trabalhadora sexual em uma longa linhagem, todas buscando se sustentar da forma que podem, mesmo que, como dito mais \u00e0 frente no filme, sem direitos trabalhistas m\u00ednimos. A apropria\u00e7\u00e3o da personagem como substrato para a manifesta\u00e7\u00e3o do desejo sexual masculino funciona, ent\u00e3o, como uma estrutura metalingu\u00edstica em que se aplica a f\u00f3rmula, objetificando a personagem, para criticar a pr\u00f3pria f\u00f3rmula, que exp\u00f5e trabalhadoras sexuais a situa\u00e7\u00f5es desumanizadoras na vida real.<\/p>\n\n\n\n<p>O jogo realizado no filme com o segundo componente do prazer espectatorial, o ego masculino, me parece ainda mais subversivo e inteligente que o primeiro. Se temos \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o uma personagem com uma carga er\u00f3tica t\u00e3o forte, \u00e9 esperado que haja tamb\u00e9m figuras masculinas capazes de domin\u00e1-la e, assim, emascular o espectador homem atrav\u00e9s da identifica\u00e7\u00e3o. Em pesquisa quantitativa realizada com pessoas de faixas et\u00e1rias e classes sociais diversas, Valeska Zanello indagou qual seria o pior xingamento a ser atribu\u00eddo a um homem e obteve como principais respostas as ofensas \u00e0 heteronormatividade (\u201cviado\u201d), \u00e0 produ\u00e7\u00e3o material (\u201cfracassado\u201d, \u201cpobre\u201d e etc) e \u00e0s caracter\u00edsticas sexuais, especialmente vinculadas ao falo e \u00e0 efici\u00eancia sexual. Nesse sentido, Ivan, \u00fanico personagem pelo qual \u00e9 poss\u00edvel se sentir perto de dominar Anora, n\u00e3o se distancia apenas pontualmente do ideal de ego masculino, mas simboliza uma das maiores chagas que podem atingir a virilidade de um homem: a inexperi\u00eancia sexual.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando Anora come\u00e7a a educar sexualmente seu namorado, ap\u00f3s muitas performances constrangedoras de Ivan, o p\u00fablico pode induzir que finalmente assistiria a emascula\u00e7\u00e3o do personagem. Ao contr\u00e1rio: acabam as cenas de sexo. Nesse momento entra em cena Igor, outro personagem com algum interesse em Anora. Por meio dele, Sean Baker brinca de novo com as expectativas do espectador, deixando em aberto at\u00e9 os instantes finais se haver\u00e1 algum envolvimento entre os dois. Igor, repetidamente agredido e humilhado por Anora, ainda n\u00e3o \u00e9 o ego ideal, mas representaria uma possibilidade vi\u00e1vel para a consuma\u00e7\u00e3o do prazer masculino, at\u00e9 agora sem completar a etapa eg\u00f3ica.<\/p>\n\n\n\n<p>Na \u00faltima cena, os dois se beijam. Mesmo que Igor tenha colaborado com as viol\u00eancias f\u00edsicas e psicol\u00f3gicas, n\u00e3o seria uma surpresa se a protagonista se rendesse a essa figura constru\u00edda como algu\u00e9m que \u201cn\u00e3o \u00e9 de todo mal\u201d, \u00e0 la A Bela e a Fera. \u00c9 a escolha de fazer a personagem recuar e, ao inv\u00e9s de satisfazer um olhar fetichista, entregar o momento mais humanizado e vulner\u00e1vel do filme, com a exposi\u00e7\u00e3o de toda a sua dor, que encerra seu arco com chave de ouro. <\/p>\n\n\n\n<p>G\u00eanero n\u00e3o \u00e9 um conceito est\u00e1tico, mas um produto cultural que passa por refor\u00e7os identit\u00e1rios atrav\u00e9s das tecnologias de g\u00eanero (DE LAURETIS, 1987). Essas tecnologias se tornam ainda mais necess\u00e1rias na contemporaneidade, momento no qual o controle social se d\u00e1 de maneira menos repressiva e mais discursiva, isto \u00e9, por meio da dissemina\u00e7\u00e3o de certos valores de modo que cada indiv\u00edduo acredite que aquele senso de moral \u00e9 inerente \u00e0 si. Ent\u00e3o, quando assistimos uma obra, e certamente j\u00e1 vimos muitas, em que a personagem feminina encontra a felicidade ao negligenciar sua seguran\u00e7a f\u00edsica e mental por um homem, h\u00e1 a possibilidade de se assimilar, aumentada pelo volume de obras com a mesma mensagem, que esse \u00e9 o papel feminino fora do cinema tamb\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, Anora traz um panorama interessante no que tange \u00e0s emocionalidades femininas ao representar essa mulher que, ao inv\u00e9s de encontrar realiza\u00e7\u00e3o pessoal, se fere profundamente ao fazer o socialmente esperado em alguns quesitos rom\u00e2nticos e sexuais, ou seja, dedicar todas as suas for\u00e7as para tentar se manter em uma rela\u00e7\u00e3o falida e aceitar momentaneamente ter trocas carnais com o seu algoz. Al\u00e9m disso, os tensionamentos er\u00f3ticos do filme tamb\u00e9m me chamam aten\u00e7\u00e3o, por colocarem a personagem em uma posi\u00e7\u00e3o por vezes objetificada, mas que amplifica as problematiza\u00e7\u00f5es de classe e g\u00eanero do filme, sem se render a uma reprodu\u00e7\u00e3o maquinal de uma perspectiva que prioriza por completo o prazer masculino<br>.<br><strong>REFER\u00caNCIAS BIBLIOGR\u00c1FICAS<br><\/strong>LAROCCA, Gabriela. Bruxas no cinema: Mal feminino no filme A Maldi\u00e7\u00e3o do Dem\u00f4nio (1960). IN: Laborat\u00f3rio de Estudos do Romance USP, Youtube. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=o7GVCUg60PI. Acesso em: 16 de mar\u00e7o de 2025. LAURETIS, Teresa de. <em>Atrav\u00e9s do espelho: o cinema e a imagem da mulher. <\/em>Trad. Andr\u00e9a Seligmann Silva. S\u00e3o Paulo: Papirus, 1994.<br>TOLEDO, Marina. Entenda as pol\u00eamicas de \u201cThe Idol\u201d, s\u00e9rie do criador de \u201cEuphoria\u201d, com The Weeknd e Lily-Rose Depp. <em>CNN Brasil<\/em>, S\u00e3o Paulo, 4 jun. 2023. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.cnnbrasil.com.br\/entretenimento\/entenda-as-polemicas-de-the-idol- serie-do-criador-de-euphoria-que-estreia-hoje-4\/. Acesso em: 18 mar. 2025.<\/p>\n\n\n\n<p>MULVEY, Laura. Prazer visual e cinema narrativo. In: XAVIER, Ismail (Org.). <em>A experi\u00eancia do cinema: antropologia e est\u00e9tica da recep\u00e7\u00e3o cinematogr\u00e1fica. <\/em>Rio de Janeiro: Graal, 1983. p. 437-453.<br>DE LAURETIS, Teresa. Technologies of Gender: Essays on Theory, Film, and Fiction. Bloomington: Indiana University Press, 1987.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>REFER\u00caNCIAS AUDIOVISUAIS<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>ANORA. Dire\u00e7\u00e3o: Sean Baker. Estados Unidos: FilmNation Entertainment, 2024.<br>A MALDI\u00c7\u00c3O DO DEM\u00d4NIO. (<em>La maschera del demonio<\/em>). Dire\u00e7\u00e3o: Mario Bava. It\u00e1lia: Galatea Film, 1960.<br>A BELA E A FERA. (<em>La belle et la b\u00eate<\/em>). Dire\u00e7\u00e3o: Jean Cocteau. EUA: DisCina, 1946. POBRES CRIATURAS. (<em>Poor Things<\/em>). Dire\u00e7\u00e3o: Yorgos Lanthimos. EUA: Searchlight Pictures, 2023.<br>THE IDOL. Cria\u00e7\u00e3o: Sam Levinson, Abel Tesfaye, Reza Fahim. EUA: HBO, 2023.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por \u00c1dria Sofia Dias Lage \/ Teresa de Lauretis (DE LAURETIS, 1996, pg. 100) pontua que tanto no modelo lingu\u00edstico estrutural, quanto no psicanal\u00edtico din\u00e2mico, ambos alicerces fundamentais da teoria contempor\u00e2nea do cinema, \u201ca rela\u00e7\u00e3o da mulher com a sexualidade ou \u00e9 reduzida e assimilada \u00e0 sexualidade masculina ou fica nela confinada\u201d. 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