{"id":657,"date":"2025-03-21T18:09:05","date_gmt":"2025-03-21T21:09:05","guid":{"rendered":"https:\/\/oca.ufpa.br\/?p=657"},"modified":"2025-03-21T18:11:38","modified_gmt":"2025-03-21T21:11:38","slug":"critica-do-filme-o-reflexo-do-lago","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/oca.ufpa.br\/?p=657","title":{"rendered":"Cr\u00edtica do filme O Reflexo do Lago"},"content":{"rendered":"\n<p>Por St\u00e9phanie Nascimento \/<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><em>\u201cO Reflexo do Lago\u201d (Amazon Mirror) <\/em>\u00e9 um document\u00e1rio de 1h19 minutos que foi dirigido por Fernando Segtowick e foi lan\u00e7ado em 2020. O filme explora de forma po\u00e9tica os impactos socioambientais devido a constru\u00e7\u00e3o da Usina Hidrel\u00e9trica de Tucuru\u00ed, no Par\u00e1, que foi conclu\u00edda na d\u00e9cada de 1980. A Usina de Tucuru\u00ed \u00e9 uma das maiores do Brasil, foi inaugurada nos anos 80 com a promessa de garantir energia para a regi\u00e3o e outras localidades. No entanto, quatro d\u00e9cadas depois, os impactos ambientais provocados pelo empreendimento ainda ecoam na paisagem e na vida das comunidades locais.<\/p>\n\n\n\n<p>No filme, \u00e9 mostrado o resultado da constru\u00e7\u00e3o da barragem, que resultou na inunda\u00e7\u00e3o de aproximadamente 2.850 km2 de floresta amaz\u00f4nica, provocando a perda irrepar\u00e1vel de biodiversidade. Esp\u00e9cies end\u00eamicas foram extintas ou deslocadas, vegeta\u00e7\u00f5es ficaram submersas, contribuindo para emiss\u00e3o do efeito estufa, como metano, liberado pela decomposi\u00e7\u00e3o da mat\u00e9ria org\u00e2nica debaixo d\u2019\u00e1gua. Mesmo ap\u00f3s d\u00e9cadas da instala\u00e7\u00e3o da usina, as comunidades ribeirinhas e moradores da regi\u00e3o ainda sofrem com os desdobramentos da barragem, principalmente com o deslocamento for\u00e7ado e a falta de acesso \u00e0 energia el\u00e9trica (o que \u00e9 uma ironia, visto que eles moram bem ao lado da maior usina do Brasil), e as mudan\u00e7as dr\u00e1sticas no ecossistema local.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Com dire\u00e7\u00e3o de Fernando Segtowick, a obra audiovisual tem uma beleza \u00e1spera e melanc\u00f3lica, que transforma a imensid\u00e3o da Amaz\u00f4nia em um espa\u00e7o de mem\u00f3rias apagadas e promessas n\u00e3o cumpridas. Gravado em preto e branco, o longa abandona a trajet\u00f3ria expositiva tradicional de document\u00e1rios e \u00e9 constru\u00eddo como um agrupamento de relatos, permitindo que a pr\u00f3pria paisagem e seus habitantes contem a hist\u00f3ria de que o progresso t\u00e3o almejado foi esquecido.<\/p>\n\n\n\n<p>Em alguns momentos na narrativa \u00e9 poss\u00edvel perceber que o diretor se coloca como personagem no filme para trazer uma perspectiva pessoal sobre os impactos da constru\u00e7\u00e3o. Uma abordagem que \u00e9 at\u00e9 interessante, mas \u00e0s vezes executada em planos longos demais, que, na minha percep\u00e7\u00e3o, deixam a narrativa perdida e at\u00e9 pregui\u00e7osa. Muitas das vezes ele insere suas reflex\u00f5es e questionamentos, guiando o espectador por uma investiga\u00e7\u00e3o (vazia) que mistura mem\u00f3ria, hist\u00f3ria e den\u00fancia. Esse envolvimento direto torna o filme subjetivo, destacando n\u00e3o apenas os testemunhos das comunidades afetadas, mas tamb\u00e9m a rela\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio Fernando com a hist\u00f3ria que est\u00e1 sendo contada.<\/p>\n\n\n\n<p>O filme \u00e9 constru\u00eddo lado a lado de diferentes camadas e sobreposi\u00e7\u00f5es visuais e narrativas, alternando entre momentos de contempla\u00e7\u00e3o com um estilo mais direto, pr\u00f3ximo do cinema de reportagem. Ele caminha entre diferentes formas de representa\u00e7\u00e3o, ora adotando um naturalismo mais elaborado, ora recorrendo a uma abordagem despojada e espont\u00e2nea. Diversas vezes eu fiquei perdida, pois n\u00e3o sabia o que o document\u00e1rio queria me apresentar. Essa fus\u00e3o de elementos refor\u00e7a a ideia de que as barreiras entre document\u00e1rio e fic\u00e7\u00e3o s\u00e3o cada vez mais sutis, seguindo uma tend\u00eancia do cinema contempor\u00e2neo em explorar formatos h\u00edbridos. Hoje \u00e9 praticamente imposs\u00edvel escapar dessa vis\u00e3o mais autoral, independentemente do grau de realismo ou distanciamento pela forma como ele \u00e9 abordado.<\/p>\n\n\n\n<p>A escolha est\u00e9tica do preto e branco n\u00e3o \u00e9 apenas um capricho visual, mas uma decis\u00e3o narrativa poderosa. O diretor relatou que a inspira\u00e7\u00e3o para o document\u00e1rio foi uma fotografia do livro <em>Projeto: Lago do Esquecimento (2011)<\/em> da fot\u00f3grafa Paula Sampaio, que mostra uma \u00e1rvore morta no lago do Tucuru\u00ed. Fernando conta que a \u00e1rvore lhe remeteu a uma pessoa se afogando e pedindo socorro.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>O reflexo no lago, t\u00edtulo que remete ao espelho d\u2019\u00e1gua criado pela barragem, \u00e9, na verdade, um reflexo da neglig\u00eancia hist\u00f3rica que mant\u00e9m essas pessoas na sombra. A grande for\u00e7a do document\u00e1rio est\u00e1 na escuta. Os moradores falam de um passado de promessas, de uma terra que foi alagada n\u00e3o apenas pelas \u00e1guas, mas pelo esquecimento dos poderosos e do poder p\u00fablico. Fala sobre a ironia brutal de viver \u00e0s margens de uma das maiores hidrel\u00e9tricas do pa\u00eds sem ter acesso \u00e0 eletricidade.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, abordagem contemplativa e minimalista pode ser um bloqueio para algumas pessoas, como foi para mim em diversos momentos do document\u00e1rio. A aus\u00eancia de um fio narrativo mais estruturado ou de uma investiga\u00e7\u00e3o mais profunda sobre os respons\u00e1veis, para mim foi o que mais deixou a desejar. Ficou a sensa\u00e7\u00e3o de que falta um enfrentamento direto do sistema que perdura essa injusti\u00e7a. Os planos longos do diretor como personagem, por exemplo, na cena em que Segtowick fica nadando, era algo que para mim n\u00e3o precisava estar ali, na verdade era s\u00f3 uma forma po\u00e9tica de mostrar o lago.<\/p>\n\n\n\n<p>O diretor opta por n\u00e3o entregar um document\u00e1rio did\u00e1tico ou investigativo no sentido tradicional, e sim opta em dar voz aos moradores da regi\u00e3o, que relatam suas mem\u00f3rias, perdas e frustra\u00e7\u00f5es. Segtowick busca ressaltar a contradi\u00e7\u00e3o entre o discurso do desenvolvimento e a realidade das pessoas que vivem sem acesso \u00e0 eletricidade, sa\u00fade e infraestrutura b\u00e1sica, mesmo estando pr\u00f3ximas a uma das maiores usinas hidrel\u00e9tricas do Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>A dire\u00e7\u00e3o de arte e fotografia conseguiram me sensibilizar diversas vezes com as hist\u00f3rias da comunidade, o fato do filme ser em preto e branco foi uma sacada muito boa para o document\u00e1rio. Quando a gente pesquisa no Google sobre o que significa filmes em preto e branco, palavras como atemporal e dramaticidade s\u00e3o palavras comumente citadas. E acredito que foi isso que Fernando quis passar, trazer uma carga mais dram\u00e1tica, uma sensa\u00e7\u00e3o \u00fanica e subjetiva da obra e sugerir de que a narrativa se passa em outra dimens\u00e3o ou lugar diferente do real.<\/p>\n\n\n\n<p>Se Tucuru\u00ed simboliza o avan\u00e7o energ\u00e9tico do Brasil, tamb\u00e9m se tornou um lembrete amargo do alto custo ambiental e social desse progresso. A destrui\u00e7\u00e3o de ecossistemas inteiros e o deslocamento de comunidades n\u00e3o podem ser tratados como meros efeitos colaterais do desenvolvimento. A promessa de sustentabilidade exige mais do que discursos &#8211; exige planejamento real e compromisso com o equil\u00edbrio entre crescimento e preserva\u00e7\u00e3o, algo que Tucuru\u00ed falhou em garantir. Ainda assim, <em>O Reflexo do Lago <\/em>\u00e9 um filme necess\u00e1rio. N\u00e3o \u00e9 um filme que grita, mas que ecoa. Sua for\u00e7a est\u00e1 nos sil\u00eancios, nos rostos marcados e na \u00e1gua parada que esconde uma ferida aberta.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por St\u00e9phanie Nascimento \/ \u201cO Reflexo do Lago\u201d (Amazon Mirror) \u00e9 um document\u00e1rio de 1h19 minutos que foi dirigido por Fernando Segtowick e foi lan\u00e7ado em 2020. O filme explora de forma po\u00e9tica os impactos socioambientais devido a constru\u00e7\u00e3o da Usina Hidrel\u00e9trica de Tucuru\u00ed, no Par\u00e1, que foi conclu\u00edda na d\u00e9cada de 1980. 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