{"id":663,"date":"2025-03-21T18:28:02","date_gmt":"2025-03-21T21:28:02","guid":{"rendered":"https:\/\/oca.ufpa.br\/?p=663"},"modified":"2025-03-21T18:28:02","modified_gmt":"2025-03-21T21:28:02","slug":"critica-do-filme-flow","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/oca.ufpa.br\/?p=663","title":{"rendered":"Cr\u00edtica do filme Flow"},"content":{"rendered":"\n<p>Lyandra Farias Ribeiro \/ <\/p>\n\n\n\n<p><em>Flow<\/em> \u00e9 um longa-metragem de anima\u00e7\u00e3o que conta a hist\u00f3ria de um gatinho que, em meio a uma enchente, precisa deixar seu lar para sobreviver. Lutando contra o seu medo de \u00e1gua, ele precisa ser corajoso para enfrentar seu maior temor e equilibrar as diferen\u00e7as entre esp\u00e9cies para conseguir se salvar.<\/p>\n\n\n\n<p>Surpreendendo a todos, <em>Flow<\/em> foi feito por um diretor let\u00e3o em um software gratuito com uma equipe e um or\u00e7amento super reduzido, finalizado pouco antes de sua estreia, no Festival de Cannes. Algo que, com certeza, trouxe o seu diferencial, n\u00e3o vemos uma longa lista de nomes em seus cr\u00e9ditos, com a maior parte das fun\u00e7\u00f5es feita pelo seu diretor, Gints Zilbalodis. Em entrevista ao site Omelete, ele relatou esse processo: \u201cUsei o Blender para fazer Flow. \u00c9 um software de aberto, livre e qualquer crian\u00e7a hoje em dia pode fazer um filme usando ele. [&#8230;] Vai levar algum tempo para processar, n\u00e3o poderia ter feito isso sem a ajuda de todos aqui, nossos companheiros na Let\u00f4nia, e de outros pa\u00edses. Me sinto muito sortudo.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Com sua simplicidade, o gatinho conquistou o mundo vencendo o pr\u00eamio de Melhor Anima\u00e7\u00e3o no Globo de Ouro e no Oscar. A Let\u00f4nia \u2013 pa\u00eds de origem de Zilbalodis \u2013 est\u00e1 em festa. Seus trof\u00e9us est\u00e3o orgulhosamente em exposi\u00e7\u00e3o no Museu Nacional de Arte da Let\u00f4nia, atraindo grandes filas apenas para v\u00ea-lo mais de perto. Grafites, crian\u00e7as pedindo gato preto de presente e at\u00e9 est\u00e1tuas do felino s\u00e3o algumas das maneiras dos cidad\u00e3os de se alegrar e comemorar a grande vit\u00f3ria. Esta n\u00e3o ser a primeira anima\u00e7\u00e3o do cineasta. Em 2019, ele lan\u00e7ou <em>Away<\/em> (2019), realizado com o programa de computador Autodesk Maya e com as mesmas caracter\u00edsticas de <em>Flow<\/em>, mas que n\u00e3o fez tanto sucesso mundo afora.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Flow<\/em> carrega uma quantidade de sentimentos impl\u00edcitos e palavras n\u00e3o ditas. O medo \u00e9 transparente em seus olhos e express\u00f5es, cada passo \u00e9 muito bem pensado para representar as esp\u00e9cies em sua natureza. A abordagem que Zilbalodis escolhe chama a aten\u00e7\u00e3o: um filme sem di\u00e1logos, sem personifica\u00e7\u00e3o de animais e com um tra\u00e7o \u00fanico em sua anima\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 atoa que ganhou uma vasta credibilidade desde seu lan\u00e7amento. Zilbalodis opta pela simplicidade, contrariando tudo o que normalmente estamos acostumados a ver atrav\u00e9s de grandes est\u00fadios hollywoodianos. A textura de cada personagem \u00e9 mais chapada e desbotada, sem grandes nuances de cores. Isso, por\u00e9m, encanta ainda mais o espectador, por ser algo que o diferencia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s demais anima\u00e7\u00f5es recentes. A dublagem \u00e9 feita por animais reais \u2013 com exce\u00e7\u00e3o da capivara que, segundo o diretor, tem um som de um camelo beb\u00ea, j\u00e1 que o som real n\u00e3o o agradou em conjunto a personagem. Essa autenticidade dos sons nos leva a ter uma maior rela\u00e7\u00e3o de afeto aos protagonistas, a torcer e a temer por eles.<\/p>\n\n\n\n<p>Detalhes e inserts nos mostram est\u00e1tuas, desenhos e cortes de \u00e1rvores em formatos do felino, dizendo que o gatinho j\u00e1 foi muito amado um dia, mas agora vive sozinho. N\u00e3o \u00e9 explicado no filme como ele chegou at\u00e9 ali, por\u00e9m, implicitamente, entendemos o motivo: as enchentes, mas tamb\u00e9m sinto que isso seja algo muito interpretativo de cada espectador, trazendo m\u00faltiplas camadas e interpreta\u00e7\u00f5es ao filme. Zilbalodis traz uma analogia escondida atrav\u00e9s da \u00e1gua: a mudan\u00e7a. O mesmo, ao dar entrevistas, comenta que se baseou em seu gatinho e que o fez enfrentar seu medo de \u00e1gua. Assim, logo no in\u00edcio, as primeiras imagens s\u00e3o das correntezas, de seu reflexo em um lago, deixando claro ao espectador sobre o que fala o filme. Her\u00e1clito, fil\u00f3sofo pr\u00e9-socr\u00e1tico, usava a imagem de um rio como representa\u00e7\u00e3o da mudan\u00e7a, ele dizia que as mesmas sempre mudam e, consequentemente, quem se banha nele tamb\u00e9m. Nesse sentido, percebemos o quanto os personagens mudam no decorrer da trama, o gatinho medroso que nem tocava no mar, d\u00e1 corajosos mergulhos em busca de comida, al\u00e9m da grande evolu\u00e7\u00e3o, pois mesmo ap\u00f3s as enchentes passarem, nada retorna da mesma forma que era anteriormente.<\/p>\n\n\n\n<p>Retornando a aspectos t\u00e9cnicos, a constru\u00e7\u00e3o sonora contribui para nos prender em tela, as nuances da melodia em cada fuga ou nos momentos de sobreviv\u00eancia ajudam a manter a aten\u00e7\u00e3o no que est\u00e1 acontecendo e mostra o tom de cada cena. A fotografia nos proporciona uma imers\u00e3o em sua est\u00e9tica, sua beleza encanta, adquirindo uma linda ilumina\u00e7\u00e3o em seus dias de sol e uma sombria escurid\u00e3o na calada da noite. Ou em cenas com mais cargas dram\u00e1ticas, como a do pesadelo do gatinho, trazendo os veados e sua corrida como s\u00edmbolo de que algo ruim est\u00e1 por vir, j\u00e1 que o an\u00fancio da enchente \u00e9 trazido junto deles. A c\u00e2mera \u00e9 colocada na altura de cada um, planos e contra-planos mostrando a rela\u00e7\u00e3o entre eles. Percebemos isso no in\u00edcio da intera\u00e7\u00e3o entre a ave e o gato, a grande diferen\u00e7a de altura, fazendo o menor temer o outro.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma das cenas mais marcantes do longa-metragem, que demonstra como o filme constr\u00f3i as suas mensagens sem precisar recorrer a falas, foi o momento da briga entre as duas aves, com o bando das mesmas assistindo. O modo como um olha o outro de cima, claramente mostrando superioridade, e a forma como o bando apenas observa tudo e ainda obedece as ordens do superior, traz uma mensagem de analogia ao bullying. No fim do acontecimento, quando o secret\u00e1rio percebe que agora est\u00e1 sozinho, abandonado pelo seu grupo, o felino se aproxima, como uma forma de agradecer por o ter defendido e dizer que ele tem amigos, por\u00e9m, apesar do significado impl\u00edcito, o mesmo come\u00e7a a lamber sua pata, o que reafirma ao p\u00fablico que eles continuam sendo bichos.<\/p>\n\n\n\n<p>Entretanto, apesar de abordar a natureza de cada animal, <em>Flow<\/em> tamb\u00e9m evidencia a intelig\u00eancia, a racionalidade de cada personagem e a necessidade de uma amizade improv\u00e1vel para garantir sua sobreviv\u00eancia. O medo do amanh\u00e3 e do que estar por vir s\u00e3o representados atrav\u00e9s deles. A uni\u00e3o e a parceria nos leva a refletir o quanto precisamos da ajuda uns dos outros, principalmente em momentos dif\u00edceis. A forma como uma capivara, um gato, um l\u00eamure, uma ave (conhecida como secret\u00e1rio) e um cachorro \u2013 esp\u00e9cies completamente diferentes entre si \u2013 precisam se juntar em um barco e trabalhar em conjunto, mostra um pouco da humaniza\u00e7\u00e3o dos personagens que, apesar de seus instintos, escolhem se unir.<\/p>\n\n\n\n<p>No fim de sua trama, vemos a vida em sua forma, a natureza agindo, uns precisam morrer para outros sobreviverem, mostrando o quanto nem todos podem sair ganhando. Percebemos isso atrav\u00e9s da baleia que, ao baixar as enchentes, notamos uma dualidade de sentimentos: a tristeza no olhar do protagonista, sem poder fazer nada para ajudar, mas tamb\u00e9m o al\u00edvio de que o pior j\u00e1 passou, ao lado de sua nova fam\u00edlia.<\/p>\n\n\n\n<p>Por fim, <em>Flow<\/em> traz uma mensagem muito importante a cada espectador: a uni\u00e3o \u00e9 a base para enfrentarmos tempos dif\u00edceis, que n\u00e3o devemos olhar as diferen\u00e7as entre si, mas sim o que possu\u00edmos em comum. O medo pode ser um grande impedimento para evoluirmos, mas ao enfrent\u00e1-los nos tornamos mais fortes e corajosos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lyandra Farias Ribeiro \/ Flow \u00e9 um longa-metragem de anima\u00e7\u00e3o que conta a hist\u00f3ria de um gatinho que, em meio a uma enchente, precisa deixar seu lar para sobreviver. 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