{"id":850,"date":"2025-06-30T16:00:24","date_gmt":"2025-06-30T19:00:24","guid":{"rendered":"https:\/\/oca.ufpa.br\/?p=850"},"modified":"2025-06-30T16:00:24","modified_gmt":"2025-06-30T19:00:24","slug":"critica-do-seriado-love-and-fortune","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/oca.ufpa.br\/?p=850","title":{"rendered":"Cr\u00edtica do seriado Love and Fortune"},"content":{"rendered":"\n<p>Por Tani Lobato*<\/p>\n\n\n\n<p>Love and Fortune (no japon\u00eas \u604b\u3068\u30c4\u30ad Koi to Tsuki) \u00e9 o tipo de dorama que n\u00e3o tem medo<br>de colocar o espectador em uma posi\u00e7\u00e3o desconfort\u00e1vel, visto que ele n\u00e3o suaviza a<br>tem\u00e1tica pesada que aborda, trazendo uma abordagem bem crua sobre o tema principal: a<br>pedofilia. O mais importante ainda \u00e9 que \u00e9 mostrado que esse crime n\u00e3o tem g\u00eanero, que o<br>agressor n\u00e3o \u00e9 sempre o \u201chomem mais velho e pervertido\u201d como o estere\u00f3tipo costuma<br>sugerir. Essa conduta tamb\u00e9m pode ser realizada por uma mulher e quem costuma seguir<br>por esse caminho \u00e9 algu\u00e9m aparentemente comum, que usa o afeto e a aten\u00e7\u00e3o como<br>ferramentas de manipula\u00e7\u00e3o. Nesse caso, \u00e9 Wako Taira, a protagonista de 31 anos.<br>Ela \u00e9 uma mulher casada que trabalha num cinema cultural da cidade, e em muitos sentidos, a encarna\u00e7\u00e3o do ego\u00edsmo mais cruel: aquele que se disfar\u00e7a de fragilidade. \u00c0 primeira vista, pode parecer uma mulher fr\u00e1gil, solit\u00e1ria, vivendo uma vida sem brilho e em um relacionamento infeliz com um namorado \u201cgamer\u201d t\u00f3xico, que n\u00e3o a escuta, n\u00e3o a valoriza, n\u00e3o a trata bem. Voc\u00ea vai sentir pena dela conforme a hist\u00f3ria se desenvolve \u2014 e o dorama constr\u00f3i essa ambiguidade propositalmente. Mas, quanto mais voc\u00ea acompanha as viv\u00eancias de Wako, as camadas v\u00e3o se desdobrando e a m\u00e1scara de v\u00edtima come\u00e7a a<br>cair, pois ela n\u00e3o \u00e9 apenas infeliz. Ela \u00e9, acima de tudo, manipuladora.<\/p>\n\n\n\n<p><br>Ela mente constantemente. Mente para o namorado, para o adolescente Iko que ela<br>manipula,  para o ex-namorado (que aparece um pouco depois na hist\u00f3ria, querendo voltar a ter um relacionamento com ela), para os amigos, para os colegas de trabalho, para a fam\u00edlia. Ela mente at\u00e9 para si mesma. Vive em torno de mentiras porque n\u00e3o tem coragem de encarar a verdade: ela \u00e9 carente, profundamente insatisfeita com tudo ao seu redor e incapaz de lidar com a realidade da sua pr\u00f3pria mediocridade emocional. Ao menor sinal de t\u00e9dio ou frustra\u00e7\u00e3o, ela corre para o pr\u00f3ximo v\u00ednculo emocional que possa aparecer. Nunca permanecendo, nunca se aprofundando. Apenas consome e abandona. Suas rela\u00e7\u00f5es s\u00e3o<br>como parasitas emocionais disfar\u00e7ados de busca por amor.<\/p>\n\n\n\n<p><br>O que mais choca no desenrolar da hist\u00f3ria \u00e9 a maneira como ela se aproxima de um<br>adolescente inocente e transforma esse v\u00ednculo em algo doentio. Iko \u00e9 um garoto puro, sincero, talvez idealista demais, e acaba entrando em um jogo emocional que ele n\u00e3o tem maturidade para compreender. No fim, ele come\u00e7a a replicar os mesmos comportamentos controladores, possessivos e t\u00f3xicos que vemos em tantos homens adultos. Ele come\u00e7a a agir dessa forma quando v\u00ea que Wako tem chance de tra\u00ed-lo, afinal, ela traiu o marido com Iko, o que impediria ela de trair novamente? Ela \u00e9 o ponto de origem de uma cadeia de dor que se propaga. Ela sabe que est\u00e1 errada. Ela tem plena consci\u00eancia da gravidade do que est\u00e1 fazendo. Mas ela continua. Sempre<br>com mentiras, se escondendo e evitando as consequ\u00eancias.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse dorama \u00e9 perturbador porque mostra algo que muitas narrativas evitam: que pessoas ruins nem sempre parecem ruins \u00e0 primeira vista. Que o predador pode ser gentil, pode sorrir, pode parecer vulner\u00e1vel. E que pensamentos intrusivos \u2014 como sexo com menores, viol\u00eancia, trai\u00e7\u00e3o, desejo de controle \u2014 podem existir dentro de qualquer um. A diferen\u00e7a \u00e9 o que se faz com esses pensamentos. Ter pensamentos ruins n\u00e3o te torna uma m\u00e1 pessoa. O ser humano \u00e9 cheio de impulsos sombrios e complexos. Mas Wako n\u00e3o apenas pensa \u2014 ela age. E por isso, ela se destr\u00f3i e destr\u00f3i os outros ao seu redor.<\/p>\n\n\n\n<p>O que torna a narrativa ainda mais intensa \u00e9 a aus\u00eancia de qualquer tentativa de reden\u00e7\u00e3o por parte dela. Wako n\u00e3o se arrepende de forma convincente, n\u00e3o tem um arco de reden\u00e7\u00e3o com l\u00e1grimas e perd\u00e3o. E \u00e9 justamente isso que torna tudo mais real. Nem todas as hist\u00f3rias t\u00eam recome\u00e7os. Algumas pessoas n\u00e3o mudam. Algumas pessoas continuam escolhendo o ego\u00edsmo, a mentira, a fuga. E esse \u00e9 o caso dela. Por isso, n\u00e3o acho que ela mere\u00e7a um final feliz. N\u00e3o \u00e9 uma puni\u00e7\u00e3o cruel, \u00e9 simplesmente a consequ\u00eancia de suas pr\u00f3prias escolhas.<br><\/p>\n\n\n\n<p>O mesmo vale para o diretor de filme. Este figurante do dorama \u00e9 um diretor que Wako e Iko s\u00e3o f\u00e3s, e acaba que de certa forma ele funciona como uma figura simb\u00f3lica \u2014 talvez at\u00e9 representando o olhar c\u00famplice da sociedade, que frequentemente fecha os olhos quando o agressor n\u00e3o se encaixa nos estere\u00f3tipos usuais. Mesmo assim, \u00e9 ineg\u00e1vel que a hist\u00f3ria \u00e9 bem contada. Tem ritmo, tem tens\u00e3o, tem um roteiro afiado e atua\u00e7\u00f5es complexas. Por mais que o final possa frustrar ou incomodar \u2014 justamente por n\u00e3o dar a li\u00e7\u00e3o moral que esperamos \u2014 a obra em si cumpre seu prop\u00f3sito com maestria. Ela incomoda, ela provoca, ela faz pensar. E, para mim, isso \u00e9 mais<br>importante do que entregar um final reconfortante.<br>Por isso, mesmo achando que os personagens n\u00e3o merecem um final feliz, ainda considero que \u201cLove and Fortune\u201d seja uma obra poderosa. Inc\u00f4moda, sim. Mas necess\u00e1ria. Porque o verdadeiro papel da arte n\u00e3o \u00e9 sempre agradar \u2014 \u00e0s vezes, \u00e9 apenas mostrar o que preferimos n\u00e3o ver. E como diz o pr\u00f3prio dorama: se a hist\u00f3ria for boa, n\u00e3o importa o final ruim.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:clamp(0.929rem, 0.929rem + ((1vw - 0.2rem) * 0.785), 1.4rem);\">*Tani Lobato \u00e9 discente do curso de Licenciatura em Hist\u00f3ria da UFPA.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Tani Lobato* Love and Fortune (no japon\u00eas \u604b\u3068\u30c4\u30ad Koi to Tsuki) \u00e9 o tipo de dorama que n\u00e3o tem medode colocar o espectador em uma posi\u00e7\u00e3o desconfort\u00e1vel, visto que ele n\u00e3o suaviza atem\u00e1tica pesada que aborda, trazendo uma abordagem bem crua sobre o tema principal: apedofilia. 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